sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Misericórdia na Vergonha




MISERICÓRDIA PARA OS DIAS DE VERGONHA

O LADRÃO VÊ. PAREDES SUJAS E UM CHÃO ENCARDIDO. A LUZ DO Sol racionada se comprimindo por entre rachaduras. A cela na prisão é escura. Os dias dele, mais ainda. Ratos se escondem apressadamente em buracos nos cantos. Se pudesse, ele faria o mesmo.
O ladrão ouve. Pés de soldados se arrastando. A porta da prisão se abrindo com um estrondo. Um guarda com a compaixão de uma viúva negra.

Levante-se! Sua hora chegou!

O ladrão vê. Rostos desafiadores, lado a lado, ao longo de um caminho de pedras. Homens cuspindo, revoltados, mulheres virando a cara. Enquanto o ladrão sobe ao cimo da montanha, um soldado o puxa para baixo. Outro pressiona seu antebraço contra uma tora e o segura com um joelho. Ele vê o soldado pegar a marreta e um prego grande.
  • O ladrão ouve. Batidas. Batidas do martelo que ressoam na cabeça.
  • Batidas do coração. Os soldados bulam enquanto levantam a cruz. A base faz um estampido ao ser encaixada no buraco.
  • O ladrão sente. Dor. De tirar o fôlego, de parar o coração. Todas as suas fibras pegando fogo.
  • O ladrão ouve. Grunhidos. Gemidos guturais. Morte. Nada mais. A morte dele mesmo. Gólgota — que quer dizer lugar da Caveira, o monte onde Jesus foi crucificado — toca essa morte como um acorde menor.
  • Nada de canções de esperança. Nada de sonetos de vida. Apenas os acordes dissonantes da morte.
  • Dor. Morte. Ele as vê; ele as ouve. Mas, a seguir, o ladrão vê e ouve outra coisa:

Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo (Lucas 23:34).

Uma flauta soa alegremente no campo de batalha. Uma nuvem de chuva encobre o sol do deserto. Uma rosa desabrocha no monte da morte.
Jesus ora em uma cruz romana.
Eis como o ladrão reage. Zombaria. "Igualmente o insultavam os ladrões que haviam sido crucificados com ele" (Mateus 27:44).
Tendo sido ferido, o ladrão fere. Tendo sido machucado, o ladrão machuca. Até no Gólgota há alguma hierarquia, e esse ladrão se recusa a ficar no degrau de baixo. Ele se une aos zomba-dores, que dizem:

Salvou os outros, mas não é capaz de salvar a si mesmo! E é o rei de Israel! Desça agora da cruz, e creremos nele. Ele confiou em Deus. Que Deus o salve agora, se dele tem compaixão, pois disse: "Sou o Filho de Deus!" (Mateus 27:42,43).

Mas Jesus se recusa a retaliar. O ladrão, pela primeira vez naquele dia (pela primeira vez em quantos dias?), vê bondade. Não olhares arremetedores nem palavras amaldiçoadoras, mas paciência.
O ladrão se comove. Ele pára de zombar do Cristo e tenta fazer os outros pararem também:

Nós estamos sendo punidos com justiça, porque estamos recebendo o que os nossos atos merecem. — Ele confessa ao criminoso na outra cruz. — Mas este homem não cometeu nenhum mal (Lucas 23:41).

O ladrão sente que está ao lado de um homem enviado pelos céus e faz um pedido:
Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino (Lucas 23:42).

E Jesus, cujo trabalho envolve aceitar imigrantes ilegais e levá-los para seu Salão Oval, responde:

Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso (Lucas 23:43).

E o mau dia do ladrão encontra a dádiva graciosa de um Deus misericordioso.
O que o ladrão vê agora? Ele vê um filho confiar sua mãe a um amigo e honrar seu amigo com sua mãe (João 19:26, 27). Ele vê o Deus que escreveu um livro sobre graça. Deus que convenceu Adão e Eva a sair detrás dos arbustos e um sanguinário Moisés a sair do deserto. O Deus que reservou um lugar para Davi, embora Davi tenha cometido adultério com Bate-Seba. O Deus que não desistiu de Elias, embora Elias tivesse desistido de Deus. Isso é o que o ladrão vê.
O que ele ouve? Ele ouve o que Moisés ouviu quando era um fugitivo no deserto, o que Elias ouviu quando estava deprimido no deserto, o que o Davi ouviu depois de seu adultério com Bate-Seba. Ele ouve o que...
  • um Pedro inconstante ouviu após o galo cantar,
  • os discípulos atirados pela tempestade ouviram após o vento parar,
  • a mulher que traía o marido ouviu depois que os homens foram embora,
  • a samaritana que se casou várias vezes ouviu antes de os discípulos chegarem,
  • o endurecido Saul ouviu depois que a luz brilhou,
  • o paraplégico ouviu quando seus amigos o passaram pela abertura no telhado,
  • o cego ouviu quando Jesus o encontrou na rua,
  • os discípulos logo ouviriam de Jesus na praia um dia de manhã cedo.

Ele ouve a língua oficial de Cristo:
  • Graça. Imerecida. Inesperada.
  • Graça. Jesus lhe respondeu:
"Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso'" (Lucas 23:43).

Paraíso. O céu intermediário. A casa dos justos até o retorno de Cristo. A árvore da vida está lá. Os santos estão lá. Deus está lá. E agora o ladrão, que começou o dia em uma prisão romana, estará lá. Com Jesus. Não há entrada pelos fundos. Não há chegadas tarde da noite. No paraíso não existe noite nem cidadãos de segunda classe. O ladrão passa pelos portões pisando no tapete vermelho de Jesus.
Hoje. Imediatamente. Sem se purificar no Purgatório. Sem reabilitação no Hades. A graça vem como a luz do sol e ilumina o dia sombrio do ladrão. O monte da execução vira o monte da transfiguração.
Talvez você precise do mesmo. Os erros de ontem fazem o papel do esquadrão da morte romano: eles o acompanham ao calvário da vergonha.
Os rostos do passado estão no caminho. Vozes berram seus crimes enquanto você passa:
  • Você negligenciou seu pai e eu!
  • Você deixou o vício roubar sua juventude!
  • Você prometeu que voltaria!
Logo você é crucificado na cruz de seus erros. Erros idiotas. O que você vê? Morte. O que você sente? Vergonha. O que você ouve?
Ah, essa é a pergunta. O que você ouve? Você consegue escutar Jesus no meio de seus acusadores? Ele garante: "Hoje você estará comigo no paraíso."
Hoje. Este é o dia. No meio desse dia angustiante, Jesus faz um milagre. Enquanto outros crucificam seu passado, ele abre as portas para seu futuro. Paraíso. Jesus trata com misericórdia seus dias de vergonha.
Ele levará sua culpa, se você lhe pedir isso. Tudo que ele espera é que você peça. As palavras do ladrão bastam. "Nós estamos sendo punidos com justiça, porque estamos recebendo o que os nossos atos merecem.
  • Mas este homem não cometeu nenhum mal..."
  • Nós estamos errados. Ele está certo.
  • Nós pecamos. Ele é o Salvador.
  • Nós precisamos de graça. Jesus pode nos dar.
  • Então peça ao Senhor: "Lembra-te de mim quando entrares no teu Reino."
E quando você pedir, aquele que falou novamente proferirá estas palavras: "Hoje você estará comigo no paraíso."

Max Lucado